O
burburinho se espalhava pela cidade.
—
Dizem que o homem de boca costurada apareceu de novo em Shinjuku. Alguém viu
alguma coisa?
—
Sério? Achei que fosse só lenda urbana…
—
Lenda? Então explica os cinco estudantes que foram parar no hospital.
—
E se não for humano? Talvez seja um fantasma.
—
Ou algo pior…
—
Aposto que é marketing de jogo novo.
—
Marketing não coloca gente no hospital. Isso é real.
Desde
o incidente de Roswell, em 1947, os humanos procuram vida extraterrestre nos
céus. "Estamos sozinhos no Universo?" é a pergunta que não cala. Mas
talvez a resposta não esteja nas estrelas… e sim nas telas dos computadores.
Hoje,
a Rede Digital funciona como um mundo paralelo ao nosso. Hologramas de cães
guiam pedestres em obras, dragões digitais cospem chamas para anunciar
energéticos e a virtualidade se mistura à realidade de forma cada vez mais
natural.
No
Japão, hologramas se tornaram parte do dia a dia. Quase todo mundo aceitou bem.
Quase.
A
Academia Hazakura não era uma escola comum — era um internato de elite. A
filosofia da instituição era simples: os alunos se desenvolvem muito mais
vivendo dentro do ambiente acadêmico, imersos em estudo, convivência e
disciplina constante.
Morar
lá não era obrigatório, mas quase 100% dos estudantes optavam por ficar. O
motivo era óbvio: Hazakura tinha um dos maiores índices de aprovação para o
ensino superior do país. As vagas eram disputadíssimas e, mesmo as
universidades públicas sendo pagas, estudar ali era a chance real de garantir
um futuro acadêmico sólido.
O
currículo era rigoroso. Além das disciplinas tradicionais, os alunos podiam
escolher cursos específicos voltados para áreas profissionais.
O
sinal tocou alto pela sala.
Hiro
despertou de sobressalto sobre a carteira, erguendo a cabeça enquanto os
colegas se levantavam para ir embora. Ele havia dormido quase a aula inteira.
Alguém percebeu.
Do
outro lado da sala, Amy — cabelo rosa vibrante preso em um coque alto com um
grande laço rosa, cachos loiros em degradê caindo sobre os ombros, presilhas de
estrela e flor espalhadas nas laterais, óculos redondos de armação fina e o
uniforme modificado dela (blazer bege cheio de pins, camisa branca amarrada na
frente, laço verde e saia plissada roxa com patches) — fechou o caderno com
firmeza.
—
Hiro… você pode me explicar o que acha que está fazendo?
Ele
passou a mão pelo rosto, irritado.
—
Olha, não começa. Eu já tô de mau humor hoje.
Amy
cruzou os braços.
—
Você dormiu a aula inteira. A professora estava explicando o conteúdo da prova
e você simplesmente ignorou.
—
Eu tava cansado. Só isso.
—
"Só isso"? — Amy franziu a testa. — Como representante, eu tenho que
garantir que a turma acompanhe a matéria. Dormir desse jeito só atrapalha todo
mundo.
—
Não é problema seu como eu ajo — respondeu ele, seco, sem encará-la.
Amy
deu um passo à frente e pisou com força no pé dele.
— AÍ! — Hiro puxou o pé para trás. — Qual é o seu problema?!
—
O meu problema é aluno que acha que as regras não se aplicam a ele! — disparou
ela, apontando o dedo. — Se não quer estudar, pelo menos não atrapalhe a aula!
Hiro
ficou em silêncio por um segundo, mais surpreso do que com dor.
—
Eu não pedi sermão.
—
Não precisa pedir — rebateu Amy. — Faz parte do meu trabalho quando alguém age
como irresponsável!
O
corredor já começava a encher. Alguns alunos diminuíam o passo para olhar.
Hiro
finalmente a encarou, olhos amarelos frios.
— Não enche a minha paciência… — murmurou, cansado.
Ele
passou por ela e saiu para o corredor.
Amy
soltou o ar devagar, tentando se acalmar.
—
Inacreditável…
—
Hiro, poderia vir comigo até a minha sala?
Ele
suspirou, virando-se. A professora Mikasa estava parada alguns passos adiante,
olhar firme e sereno.
—
Claro… — murmurou, sem entusiasmo.
Hiro
a seguiu pelo corredor até a sala dela. Mikasa fechou a porta com cuidado,
apoiou-se na mesa e cruzou os braços, observando Hiro por alguns segundos.
—
Quer me explicar o que aconteceu na aula agora há pouco?
Hiro
desviou o olhar para a janela.
—
Nada demais… eu só tava cansado.
—
Hiro.
O
tom dela deixou claro que aquela resposta não bastava.
Ele
soltou um suspiro.
—
Eu dormi na aula. Pronto.
—
Eu sei. A Amy já me contou. E não foi só ela que percebeu.
Hiro
fez uma careta.
—
Ótimo… agora a representante virou espiã também.
Mikasa
ignorou o comentário.
—
O problema não é só dormir. Hoje a professora estava explicando o conteúdo da
prova. Você pode se prejudicar.
—
Eu me viro depois.
Ela
ficou em silêncio, analisando-o.
—
Você não costuma dormir assim nas aulas. Então vou perguntar de novo… o que
aconteceu?
Hiro
ficou quieto por um momento.
—
Hoje é o dia que eu fui abandonado… lembra? — admitiu por fim, voz baixa. — Só
acontece merda na minha vida. Eu nem pedi pra nascer… nem queria tá vivo.
Preferia estar cremado.
O
silêncio que veio foi pesado.
Mikasa
se levantou devagar, caminhou até ele e abaixou-se para ficar na altura dos
seus olhos. Colocou a mão suavemente no topo da cabeça dele, bagunçando de leve
os cabelos brancos.
—
Não fala assim de si mesmo.
—
Mas é verdade — murmurou Hiro, ainda evitando o olhar dela.
—
Não é — respondeu ela, firme mas suave. — Não é sua culpa que os adultos tomem
decisões ruins. E você não é inútil. Eu vejo você ajudando os colegas quando
ninguém está olhando. Vejo você estudando escondido na biblioteca. Você é mais
inteligente do que tenta parecer.
Hiro
piscou, surpreso.
Mikasa
se sentou ao lado dele e o puxou para um abraço.
—
Eu quero cuidar de você. E quero que você prometa que vai se dedicar mais.
Entendeu?
Ele
ficou quieto por alguns segundos. Depois assentiu devagar.
—
…Tá bom.
Mikasa
sorriu e, antes que ele pudesse reagir, deu um beijo leve na testa dele.
Hiro
congelou.
—
Ei… isso foi desnecessário — murmurou, passando a mão na testa, meio sem jeito.
—
Reclama, mas não se afastou — ela riu baixinho.
Hiro
saiu da sala com o olhar distante, tentando ignorar o peso dos últimos dias. No
corredor, um grupo de garotos estava encostado na parede, rindo alto. Quando
ele passou, um deles — cabelo loiro pintado, uniforme desarrumado — fez um
gesto exagerado.
—
Olha só! O Hiro, o cara que agora vive trancado no quarto. Tá bolado por quê?
Alguém avisa a Amy que o brinquedo dela tá circulando por aí.
As
risadas do grupo ecoaram no corredor.
Hiro
parou, dedos apertando o celular no bolso.
—
Não é da sua conta.
—
Sério, eu não entendo — continuou Tsubasa, loiro de cabelo pintado e sorriso
falso. — A Amy é gata, famosa, podia ter qualquer cara da academia. Por que
perde tempo com esse esquisito?
—
Deve ser pena — completou um amigo magro de cabelo preto. — Tipo "vou
ajudar o coitado do órfão".
—
Órfão não — corrigiu Tsubasa, rindo. — Abandonado. O pai largou ele aqui e
sumiu.
Hiro
fechou o punho com força, mas continuou andando.
Tsubasa
deu um passo à frente.
—
Ei, Hiro! Qual é o seu segredo? Ensina a gente! Como você faz a Amy correr
atrás de você desse jeito?
Hiro
virou devagar.
—
Sai fora, Tsubasa.
—
Tô elogiando! — O loiro abriu os braços, teatral. — Ela é linda, podia estar
com qualquer um… e escolhe você. Só pode ser caridade.
O
grupo riu mais alto.
Hiro
respirou fundo. Contou até três.
—
Já que você tem tanta curiosidade, por que não pergunta direto pra ela?
Tsubasa
franziu a testa, irritado por não conseguir a reação que queria. Aproximou-se,
baixando a voz.
—
Sabe o que eu ouvi falar da Amy esses dias? Que ela não é tão
"perfeitinha" quanto parece. Que nos ensaios fotográficos, ela—
O
soco de Hiro acertou o rosto dele antes que terminasse a frase. Tsubasa
cambaleou para trás, segurando o nariz, sangue escorrendo.
—
Você… você é louco?!
Hiro
ficou parado, punhos cerrados, respiração controlada, mas o olhar perigoso.
—
Fala o nome dela de novo — disse, voz baixa. — Pode me chamar de órfão, de
abandonado, não ligo. Mas fala algo dela de novo… Vamos.
Tsubasa
limpou o sangue com as costas da mão, dividido entre raiva e medo. Os amigos
recuaram.
—
Você vai pagar por isso. Hoje à noite. No teatro. Se não aparecer, todo mundo
vai saber que o "protetor" da Amy é só um covarde.
Hiro
inclinou a cabeça, um sorriso frio surgindo no canto dos lábios.
—
Combinado. E podem vir vocês três. Vai ser um prazer.
Mais
tarde, no dormitório…
Hiro
entrou no quarto. O ambiente tinha tons azulados, moderno e funcional: cama
simples, TV de LED, mesa com computador gamer e uma varanda de vidro com vista
para a cidade.
A
porta se abriu com um estrondo quase arrombado.
Kotaro
invadiu o quarto de Hiro. Era um garoto de aparência simples, mas sempre cheio
de energia: cabelos castanhos curtos e naturalmente bagunçados, uniforme da
academia com blazer azul, camisa branca, gravata vermelha torta, calças escuras
e sapatos marrons já gastos.
—
EU OUVI FALAR QUE VOCÊ SOCOU O TSUBASA!
Hiro,
deitado na cama, virou a cabeça preguiçosamente.
—
Ele mereceu.
—
Mereceu?! — Kotaro jogou os braços para o alto. — Cara, ele é do terceiro ano!
Tem contatos! Ele pode—
—
Ele falou da Amy.
Kotaro
calou a boca na hora.
—
…Tá. Justíssimo. Mas ainda assim, você tá ferrado.
Ele
se aproximou da janela, olhando para o teatro ao longe.
—
Você vai mesmo?
Hiro
pegou a jaqueta.
—
Vou.
—
Por quê?
Hiro
hesitou um segundo, depois respondeu sem olhar para trás:
—
Porque se eu não for, eles vão achar que podem falar o que quiserem dela. E eu
não vou deixar.
Kotaro
sorriu maliciosamente.
—
Cara, não sabia que eu tinha um rival pro coração dela, he, he.
—
Cala a boca, Kota!
Hiro caminhou até o teatro da academia sob a luz da noite. A porta estava arrombada, ligeiramente aberta. Ele entrou, passos ecoando no piso de madeira.
O
teatro era moderno e sofisticado: painéis acústicos cinza e azul, fileiras de
cadeiras pretas estofadas, iluminação indireta e telas digitais nas laterais.
Tsubasa
surgiu por trás da cortina, com um sorriso arrogante nos lábios. Atrás dele, os
outros dois garotos formaram um semicírculo no palco.
—
Ora, ora! O abandonado resolveu aparecer! — provocou Tsubasa, cruzando os
braços. — Cadê sua cachorrinha? A Amy não veio te proteger hoje?
Hiro
o observou friamente.
—
Vim sozinho. Não preciso de ninguém pra lidar com vocês três.
Tsubasa
riu falso.
—
Gostei da confiança. Vamos ver se você mantém esse sarcasmo depois que a gente—
Uma
risada perturbadora ecoou pelo teatro vazio.
—
Tic… tac… tic… tac…
O
som claro de um relógio cortava o ar, vindo de todos os lados. Cada batida
ficava mais alta, mais próxima.
Hiro
olhou ao redor, tenso.
—
O que está acontecendo?
A
risada voltou, baixa e sussurrada.
—
Kukukuku…
Logo
acima do palco, uma figura monstruosa apareceu. Metade do corpo era robótica, a
outra metade orgânica. Na mão carregava um enorme martelo. O sorriso costurado
no rosto e os olhos fixos nos garotos.
—
O tempo de vocês está acabando! — rosnou Clockmon, saltando sobre o grupo com o
martelo erguido.
Hiro
desviou com agilidade, mas um dos garotos não teve a mesma sorte. O martelo
acertou em cheio sua cabeça.
—
Ruptura Temporal (Chrono Breaker)!
Uma
aura dourada explodiu ao redor do garoto. Ele gritou enquanto envelhecia
rapidamente: pele enrugada, cabelos embranquecidos. Caiu inconsciente no chão,
vitalidade sendo sugada pelo relógio no peito de Clockmon.
O
segundo garoto tentou correr, mas o martelo desceu outra vez. Ele desabou sem
um gemido, o corpo envelhecendo em segundos.
Tsubasa
caiu de joelhos, tremendo.
—
P-por favor… eu não quero morrer…
—
Morrer? — Clockmon inclinou a cabeça, sorriso costurado se esticando. — Você só
vai doar um pouco do seu tempo pra mim.
O
martelo desceu. Tsubasa foi atingido em cheio. Seus olhos reviraram e ele
desabou como um boneco quebrado. A aura dourada o envolveu, enrugando sua pele
e desbotando o cabelo loiro para cinza pálido.
—
Mais! MAIS! — rugiu Clockmon, extasiado.
Hiro
avançou furioso.
—
SEU MONSTRO!
Ele
chutou o martelo para longe e partiu para cima do Digimon com os punhos
cerrados. Os socos acertaram o peito metálico — inúteis. Clockmon o agarrou
pela garganta e o ergueu do chão.
—
Tolinho… você acha que pode me enfrentar com as mãos?
Hiro
se debatia, pernas balançando no ar, ar faltando.
—
Você… vai… pagar…
—
Com o quê? Com seu tempo? — Clockmon riu, aproximando o rosto distorcido. — Vai
ser um prazer coletar você também.
Hiro
caiu de joelhos, ofegante, vendo Clockmon erguer o martelo brilhante.
—
É o fim… — murmurou. — Amy… desculpa…
O
martelo desceu.
Mas
o impacto nunca veio.
Um
golpe violento arremessou Clockmon para o lado como se fosse um brinquedo. O
monstro colidiu contra as cadeiras com estrondo de madeira partida.
Hiro
piscou, confuso.
Diante
dele estava um gato vestido com roupas, boné e uma grande caixa de entregador
nas costas. O felino virou a cabeça lentamente e o encarou com olhos
penetrantes. Fez um gesto rápido com a pata, como quem diz "vai
logo".
Hiro
não pensou duas vezes. Forçando o corpo dolorido, levantou e correu para a
saída.
—
SEU MALDITO! — rugiu Clockmon, saltando atrás dele.
O
gato entregador nem se mexeu. Apenas deu um passo para trás.
Um
portal redondo e brilhante se abriu no ar. O gato recuou calmamente e
atravessou. O portal se fechou no instante exato em que Clockmon atacou,
deixando o martelo acertar apenas o vazio.
Do
lado de fora do teatro, Hiro não parou de correr até estar a uma distância
segura. Encostou-se em uma árvore, ofegante.
—
O que… o que foi aquilo? — murmurou, passando a mão no rosto suado.
Um
gato. De jaqueta e boné. Com caixa de entregador.
E
um portal.
—
Isso não faz sentido… — sussurrou, ainda tentando processar.
Mas
uma coisa era certa: ele estava vivo. E alguém — ou algo — o tinha salvo.
Hiro
olhou para o céu noturno, ainda ofegante.
—
Quem era aquele gato…?
Ele
voltou ao dormitório arrastando os pés, o corpo dolorido. Naquela noite, os
vigias encontraram o teatro em completo caos: três corpos irreconhecíveis,
envelhecidos décadas em minutos, espalhados pelo palco. Sirenes de polícia e
ambulâncias cortaram a madrugada enquanto boatos se espalhavam pelos corredores
da academia.
Hiro
não conseguiu dormir.
──────────── ✦
────────────
Uma
semana depois…
Hiro
estava deitado na cama, rosto enterrado no travesseiro. A imagem de Tsubasa e
seus amigos envelhecendo rapidamente ainda martelava em sua mente. Parte dele
achava que eles mereciam, mas outra parte sabia que ninguém merecia um fim tão
cruel.
Os
corredores da academia fervilhavam de teorias: maldição, ataque terrorista,
arma química. Hiro só queria esquecer.
Tap.
Tap. Tap.
Três
pancadas fortes acertaram sua cabeça.
—
Ai! — Hiro sentou-se num sobressalto, levando a mão ao local. — Que diabos…?
Ao
lado da cama havia três relógios e três pendrives. Ele pegou um relógio
prateado e um pendrive branco, franzindo a testa.
—
Como isso veio parar aqui…?
Quase
por instinto, colocou o relógio no pulso e apertou um dos botões laterais.
Uma
onda de luz azul explodiu do aparelho, preenchendo o quarto. As paredes
perderam a cor, tornando-se acinzentadas, enquanto pequenos pontos luminosos
flutuavam no ar como poeira brilhante.
Hiro
piscou, confuso.
—
Mas… o que é isso?
Ele
esfregou os olhos, ainda atordoado.
—
Deve ser sonho… — murmurou, bocejando. — Melhor dormir mais um pouco.
Sem
pensar duas vezes, jogou-se de volta na cama e enterrou o rosto no travesseiro.
—
Sim… tudo vai fazer sentido pela manhã…
Hiro
fechou os olhos novamente.
Creek.
O
som suave de uma cadeira girando ecoou pelo quarto.
Ele
abriu os olhos.
E
congelou.
Bem
à sua frente, um par de olhos exatamente iguais aos seus brilhava com pura
curiosidade.
—
Aniki! — exclamou a pequena criatura branca, acenando animado. — Oi!
Hiro
apontou para ela, paralisado.
—
Você… Você…
—
Eu me chamo Gammamon! — disse o Digimon, estufando o peito e mostrando
orgulhoso o cachecol azul.
Hiro
permaneceu imóvel, dedo ainda apontado.
—
Isso… isso não pode ser real… — murmurou, piscando várias vezes.
Gammamon
inclinou a cabeça.
—
Mas eu tô aqui. Então é real!
Ele
deu alguns passinhos pelo quarto, olhando tudo com fascinação.
—
Uau! Esse lugar é incrível! Foi você que fez tudo isso?
—
Espera… — Hiro passou a mão no rosto. — Você tá… falando comigo?
—
Tô! Porque você me chamou! — respondeu Gammamon com um grande sorriso.
Hiro
franziu a testa. Gammamon apontou para o pulso dele.
O
relógio estava firme no braço, emitindo um brilho azul suave — completamente
diferente do aparelho que ele havia jogado fora.
—
O quê…? — Hiro arregalou os olhos.
Com
cautela, ele se aproximou e tocou a cabeça do Digimon.
Gammamon
sorriu feliz ao sentir o toque.
—
Você… não é um holograma? — perguntou Hiro, ainda desconfiado.
—
Holograma? Isso é de comer? — perguntou Gammamon, inclinando a cabeça.
Hiro
suspirou.
Sem
aviso, Gammamon começou a morder a cadeira ao lado, deixando marcas profundas.
—
Ah… isso não tá bom! — reclamou, fazendo careta. — Eu tô com fome! Ele disse
que você ia cuidar de mim!
Hiro
piscou, incrédulo.
—
…O quê? Cuidar?! Quem é esse "ele" que você tanto fala?!
—
Hã? Hum… — Gammamon inclinou a cabeça, pensativo. Então seus olhos brilharam. —
Ah! Lembrei! O nome dele era Hokuto!
O
mundo de Hiro parou.
—
…Meu pai? — Ele apontou para si mesmo, incrédulo. — Disse que eu ia cuidar de
você?!
—
Disse! Falou "confia no Hiro"!
—
ELE NÃO DEVERIA CONFIAR! — gritou Hiro. — EU MAL CONSIGO CUIDAR DE MIM MESMO!
Foi
então que ele percebeu.
Sentado
calmamente sobre a mesa, o gato que o havia salvado observava os dois em
silêncio.
Hiro
virou-se num pulo.
—
E VOCÊ?! — apontou, indignado. — Isso tudo também é culpa sua, né?!
O
gato não respondeu.
—
EI, EU TÔ FALANDO COM—
PLOFT.
BlackTailmon
Uver saltou com leveza, pousou na cabeça de Hiro e, com a cauda, empurrou-o
para o chão.
—
UGH! — Hiro caiu de cara no piso.
O
gato tirou um tablet da mochila e o entregou. Assim que Hiro o tocou, um
holograma se acendeu.
Diante
dele estava seu pai.
—
Oi, Hiro! Já faz um tempo, né? Estava preocupado com você.
Hiro
soltou uma risada seca.
—
Preocupado, sei… Comprou cigarro e só voltou pra me trazer problema.
O
holograma continuou, alheio:
—
Estou em uma missão importante. Quero que conheça alguém muito especial: esse é
o Gammamon! Ele é o seu novo irmãozinho. Um Digimon. Cuide dele por mim.
—
Você me abandona por anos e agora me manda um Digimon dizendo que é meu irmão?!
— rebateu Hiro.
—
Gammamon é especial. E eu sabia que só você poderia cuidar dele.
O
pai mostrou o relógio no pulso de Hiro.
—
Esse é o Digivice-V-, minha última criação. Ele abre Campos Digitais, zonas
seguras onde Digimons podem se materializar sem causar dano ao mundo humano.
Também permite que o seu parceiro evolua. Quanto mais forte sua emoção e
vontade, mais forte ele fica.
—
Você devia estar aqui explicando isso pessoalmente, coroa… — resmungou Hiro,
cruzando os braços.
—
Qualquer pessoa que tocar no Digivice poderá ver os Digimons. É um poder raro,
com grandes responsabilidades. Conte com a BlackTailmon Uver se precisar de
ajuda. E cuidado com os outros Digimons que aparecerem.
A
imagem começou a falhar.
—
Cuide bem do Gammamon… e cuide de si também, Hiro. Um dia a gente vai se ver de
novo.
O
holograma desapareceu e o quarto voltou ao normal.
Hiro
ficou olhando o Digivice, atordoado.
—
Mundo Digital… Monstros Digitais… Droga, isso vai me dar dor de cabeça.
De
repente, um livro caiu da prateleira. Hiro se assustou.
Gammamon
tinha sumido.
—
Gammamon? Ei, você tá aí?!
A
cadeira giratória se moveu sozinha.
Hiro
lembrou das instruções do pai. Retirou o DIM Card do Digivice e o encaixou no
pulso esquerdo. A tela acendeu.
No
canto do quarto, Gammamon reapareceu, translúcido e coberto por falhas
digitais. Hiro pressionou um botão.
Uma
onda de energia azul o envolveu. O Digimon ficou sólido novamente.
—
Oh! Agora tá normal de novo! — comemorou Gammamon, batendo os pés no chão.
Hiro
suspirou, cansado.
—
…Beleza. Acho que isso vai ser bem mais complicado do que eu pensei.
Gammamon
pulou para o centro do quarto e abriu os braços, radiante.
—
Agora eu tenho um irmão! O que a gente vai fazer primeiro, aniki?
Hiro
encarou Gammamon por um longo momento. Pequeno. Branco. Cachecol azul. E aquele
sorriso enorme e idiota.
—
…Sobreviver, provavelmente.
Gammamon
inclinou a cabeça, mas sorriu ainda mais.
—
Legal! Vamos sobreviver juntos então!
Antes
que Hiro pudesse responder, o pequeno Digimon já estava cheirando a estante de
novo.
Hiro
suspirou.
Ia
ser longo.
De
repente, Gammamon ficou sério, olhos fixos na varanda.
Hiro
seguiu o olhar e sentiu o sangue gelar.
O
mesmo monstro da semana anterior estava lá: Clockmon.
—
O que ele está fazendo aqui?! — murmurou Hiro, o coração disparado.
Gammamon
se colocou na frente dele imediatamente.
—
Fique atrás de mim, aniki! — ordenou, voz firme apesar do tamanho.
Clockmon
sorriu com malícia, apoiando o martelo no ombro.
—
Outro Digimon? Nunca vi um tão estranho! Eu sou Clockmon… e vim atrás do tempo
dele!
—
Eu sou Gammamon, irmão do Hiro! — rosnou Gammamon, fincando as patas no chão. —
E você não vai tocar nele!
Sem
hesitar, Gammamon avançou e acertou um golpe forte. Clockmon recuou, perdeu o
equilíbrio e começou a saltar entre os prédios. Gammamon pulou atrás dele.
—
EI, SEU MALUCO! VOLTA AQUI! — gritou Hiro.
Ele
apertou o botão do Digivice. Uma onda azul se expandiu, criando o Campo
Digital. Hiro correu atrás dos dois.
Os
Digimon chegaram a uma praça deserta no meio da noite. As luzes fracas dos
postes criavam sombras longas e ameaçadoras.
Clockmon
parou no centro, martelo em punho, olhar frio.
Gammamon
saltou alto, gritando com determinação, pronto para atacar.
Mas
Clockmon girou o martelo com força brutal.
O
golpe acertou Gammamon no meio do salto, arremessando-o violentamente contra o
chão. Energia dourada e anéis rosados surgiram ao redor dele, sugando sua
vitalidade.
—
Não! — gritou Gammamon, sentindo sua energia ser arrancada.
Clockmon
riu descontroladamente, a voz ecoando pela praça vazia.
—
Ku, ku, ku! Sua vida agora pertence a mim!
Gammamon
lutava com todas as forças, o corpo tremendo de dor.
—
Eu não vou deixar você vencer! — exclamou, voz trêmula mas determinada.
Clockmon
intensificou o ataque, o martelo brilhando com energia sinistra.
—
É inútil! Quanto mais você lutar, mais rápido sua energia vai desaparecer!
O
pequeno Digimon começava a vacilar. Suas patas tremiam enquanto a energia
rosada pulsava cada vez mais forte ao seu redor.
Mas
então algo mudou.
Uma
sombra escura e imensa surgiu acima de Gammamon. Olhos vermelhos penetrantes
fixaram-se em Clockmon.
O
vilão sentiu um frio na espinha. A mesma presença aterrorizante de antes. Seu
riso morreu na garganta.
—
O… o que é isso? — gaguejou, mãos tremendo no martelo. Toda sua arrogância
desapareceu.
A
sombra não disse nada, mas sua mera presença tornava o ar denso e opressivo.
Clockmon ficou paralisado de medo.
Foi
nesse momento que Hiro apareceu e acertou um soco forte no rosto dele.
Clockmon
cambaleou, parando de sugar a energia de Gammamon. Levou a mão à bochecha
inchada, olhando para Hiro em choque.
—
Hiro! — exclamou Gammamon, correndo até ele.
—
Ai! Isso doeu mais em mim do que nele! — reclamou Hiro, assoprando a própria
mão. Depois encarou o parceiro: — Da próxima vez me espera! Não se meta em
problemas sozinho!
Gammamon
ficou admirado. Hokuto havia dito que o irmão era forte, mas ver aquele soco o
deixou empolgado.
Clockmon,
ainda atordoado, rugiu com raiva:
—
Como você ousa?!
Hiro
assumiu posição de luta, o Digivice no pulso começando a brilhar em vermelho.
—
Vamos acabar com isso juntos, Gammamon!
Sem
hesitar, os dois avançaram contra Clockmon. Enquanto corriam, palavras
estranhas surgiram na mente de Hiro.
— Quebragarra (Breaclaw)! — gritaram Hiro e Gammamon juntos.
Gammamon
canalizou toda a energia que compartilhava com Hiro, saltou alto e desferiu um
golpe devastador com as garras brilhantes.
As
garras acertaram Clockmon em cheio. Os ponteiros do relógio se estilhaçaram,
espalhando-se pelo ar como fragmentos de vidro.
Clockmon
soltou um grito agudo de dor. O impacto reverberou por todo seu corpo metálico.
De
repente, sua boca se abriu à força. Uma enorme onda de energia dourada explodiu
de dentro dele, inundando a praça com um brilho cegante.
A
energia roubada se libertou, restaurando o tempo das vítimas por toda a cidade.
Ofegante
e abalado, Clockmon caiu de joelhos, encarando Hiro e Gammamon com fúria e
frustração.
Seus
planos haviam sido destruídos.
Com
os olhos brilhando de raiva, ele começou a planejar sua fuga.
—
Vocês não terão tanta sorte da próxima vez, seus pirralhos!
Clockmon
deu um salto para trás e desapareceu nas sombras antes que pudessem reagir.
Hiro
caiu sentado no chão, exausto, o corpo finalmente relaxando.
—
Nós… conseguimos?
—
Sim! Conseguimos, irmãozão! — comemorou Gammamon, fazendo um gesto explosivo
com as mãos. — Foi tipo… KABOOOM!
Hiro
deixou escapar uma risada fraca.
—
Vamos voltar. Já tivemos emoção demais por uma noite.
Ele
desativou o Campo Digital. Gammamon riu animado, com seu sorriso adorável de
sempre.
Os
dois começaram a caminhar de volta para o dormitório enquanto o cansaço da
semana inteira finalmente caía sobre Hiro.
FIM
DO CAPÍTULO
──────────── ✦ ────────────































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