Digimon Ghost Game - Releitura: Capítulo 002 - Corações Sujos!

 

Na noite anterior, sob a luz fraca dos postes, um casal embriagado caminhava pela rua quase vazia, tropeçando entre risadas altas e garrafas de saquê quase vazias.

Eles mal conseguiam manter o equilíbrio — e muito menos perceber que algo os observava das sombras.

Uma presença silenciosa os acompanhava do outro lado da rua.

Sem notar o perigo, o casal entrou em um beco estreito. O homem encostou a mulher contra a parede, e os dois começaram a se beijar, alheios ao mundo ao redor.

Foi então que o som das risadas cessou.

O ar ficou pesado, frio demais para uma noite comum.

E, atrás deles, algo se moveu na escuridão.

A mulher, que estava de olhos fechados, abriu-os lentamente ao sentir uma estranha sensação de estar sendo observada. Seus olhos se arregalaram ao ver uma enorme sombra se erguer atrás de seu amante, distorcendo-se contra a parede do beco.

Ela interrompeu o beijo e apontou, tremendo.

Eles não tiveram tempo de reagir.

A criatura avançou.

O homem foi abocanhado em um único movimento brutal, desaparecendo entre presas gigantescas. O som úmido da mordida ecoou pelo beco enquanto seus gritos desesperados eram abafados, diminuindo pouco a pouco até serem completamente engolidos pelo silêncio.

A mulher gritou e tentou fugir, mas tropeçou no chão irregular, caindo com força. Suas mãos tremiam enquanto tentava se arrastar para longe.

Passos pesados se aproximaram atrás dela.

Lentos.

Famintos.

Ela virou o rosto apenas a tempo de ver a sombra se fechar sobre seu corpo.

O grito foi interrompido abruptamente.

Minutos depois, o beco voltou ao silêncio absoluto.

Não havia sangue.

Não havia marcas.

Como se ninguém jamais tivesse existido ali.

Enquanto a criatura, que era acompanhada por outras duas, começava a farejar em busca de mais alimento, sentiu uma grande fonte de energia vinda da academia, fazendo-os irem sorrateiramente para lá.

=+=

De manhã, Hiro ficou repousando no quarto. Depois das complicações com o Clockmon, sua vida tinha ficado muito bagunçada. De repente, ouviu passos e virou o olhar, encontrando Gammamon mordendo a tela do computador.

— Gammamon! Isso não é comida! — suspirou Hiro, levantando-se e tirando o pequeno Digimon de cima do monitor.

O Digimon emitiu um pequeno ronco, quase um murmúrio:

— Eu estou com fome…

Hiro suspirou novamente, olhando para o pequeno Digimon com um misto de exasperação e preocupação.

— Certo, certo… você está com fome, mas não pode simplesmente destruir meu computador, né? — disse, afastando a cadeira da mesa.

Gammamon olhou para ele com aqueles grandes olhos brilhantes, inclinando a cabeça de um jeito que parecia implorar por comida.

— Tá bem, tá bem… — Hiro murmurou, pegando uma pequena bandeja de frutas que havia ali para o café dele. — Mas só isso, hein!

O Digimon pulou de alegria, batendo as pequenas patinhas no chão, fazendo um som rápido e alegre.

Enquanto Gammamon devorava a comida, Hiro sentou-se na cama, encarando o Digivice com preocupação.

— Hokuto… o que você está aprontando comigo? — murmurou.

O que recebeu em resposta foi apenas mais um ronco satisfeito do pequeno Digimon. Hiro suspirou e se levantou.

— Tá, vou ver se compro algo pra você comer direito… assim você não faz bagunça aqui, entendeu?!

Ele passou a mão pelos cabelos, ainda sentindo o leve incômodo da dor de cabeça, e saiu do quarto. Desceu as escadas do dormitório com passos arrastados até chegar à cafeteria.

O lugar já estava relativamente movimentado. O aroma de café recém-passado se misturava ao cheiro doce de pães assando. O som constante das máquinas automáticas preenchia o ambiente — o zumbido da refrigeração, o tilintar das moedas, o clique seco dos botões sendo pressionados. Mesas longas ocupavam o centro do salão, com cadeiras de metal alinhadas de maneira organizada, enquanto grandes janelas deixavam a luz da manhã invadir o espaço, refletindo no piso encerado.

Alguns estudantes conversavam animadamente antes das aulas, outros mexiam no celular ou terminavam o café às pressas.

Hiro foi direto para as máquinas de venda automática. Observou as opções por alguns segundos e começou a apertar os botões quase sem pensar. Barras energéticas, sanduíches embalados, sucos, salgadinhos… uma quantidade exagerada para qualquer pessoa normal.

— Espero que isso seja o suficiente… — murmurou, equilibrando a pilha de comida nos braços.

Foi então que sentiu alguém tocar seu ombro.

— Hiro, meu amigão! Está se sentindo melhor? — perguntou um garoto animadamente.

Hiro quase deixou metade dos pacotes cair com o susto.

— Precisava mesmo disso agora… Kota?

Ele abriu um sorriso largo, daqueles impossíveis de ignorar.

— Cara, você sumiu desde ontem! — disse, cruzando os braços. — A Amy-chan estava bem brava com você, sabia?

Hiro fez uma careta leve.

— Eu estava na enfermaria… não foi exatamente por escolha própria.

Kotaro arregalou os olhos ao notar, só então, a quantidade absurda de comida nos braços do amigo.

— Tá… e isso tudo aí é o quê? Você resolveu virar atleta de sumô de repente?

Hiro congelou por um segundo.

— Eu… estou com fome.

Kotaro estreitou os olhos, claramente desconfiado.

— Desde quando você come por cinco?

Hiro suspirou, já perdendo a paciência.

— Kotaro, diz logo o que você quer.

Sem perder tempo, Kotaro deu a volta e parou bem na frente dele, juntando as mãos como se estivesse implorando por algo extremamente importante.

— Me passa o contato da Amy! Eu quero chamar ela pra sair!

Hiro revirou os olhos.

— Primeiro: por que eu deveria te dar isso? Segundo: desde quando isso é problema meu?

Kotaro rapidamente puxou o celular do bolso e abriu a galeria, mostrando algumas fotos de Amy modelando para um ensaio da escola. Ele aproximou a tela do rosto de Hiro com entusiasmo exagerado.

— Deixa eu te mostrar o motivo! Ela é perfeita, cara! E como você é um dos poucos que consegue falar com ela sem levar um fora imediato, eu preciso da sua ajuda! Quero ser o primeiro a conseguir sair com ela!

Hiro afastou o celular, franzindo a testa.

— Eu não "consigo falar" com ela. A gente só acaba discutindo porque ela é a representante de turma.

— Melhor ainda! — Kotaro respondeu sem hesitar. — Isso significa que ela já sabe quem você é! Metade do trabalho tá feito!

Hiro suspirou, ajustando os pacotes nos braços.

— Eu não sou intermediário de ninguém, Kota.

— Mas vocês conversam!

— Conversar não significa amizade — retrucou Hiro. — E justamente por isso eu não vou sair distribuindo o contato dela por aí.

Kotaro levou a mão ao peito como se tivesse sido atingido por uma flecha invisível.

— Cruel… você é cruel, Hiro.

— Dramático — corrigiu Hiro, já começando a andar.

Kotaro o seguiu imediatamente.

— Então pelo menos me apresenta direito! Fala bem de mim! Diz que eu sou bonito, atlético, inteligente—

— Você quer que eu minta em qual parte? — Hiro respondeu seco.

— EI!

Ignorando o protesto indignado do amigo, Hiro aproveitou o momento em que Kotaro começou a reclamar em voz alta para se afastar pelo corredor. Com a pilha de comida ainda nos braços, ele acelerou o passo e subiu as escadas do dormitório antes que fosse arrastado para mais um drama romântico.

Minutos depois, abriu a porta do quarto.

Assim que entrou, congelou.

Gammamon estava voando.

Pequenas asas negras batiam desajeitadamente em suas costas, mantendo-o alguns centímetros acima do chão. Ele parecia estar explorando o quarto como uma criança curiosa, mexendo nas cortinas e quase esbarrando na luminária.

— Hiro! — exclamou animado ao vê-lo. — Você trouxe mais comida?!

Hiro piscou algumas vezes, processando a cena.

— Você… está voando.

— Estou! — respondeu Gammamon com orgulho, girando no ar antes de perder o equilíbrio por um segundo.

Hiro apenas suspirou e caminhou até a cama. Jogou sobre ela algumas barras de chocolate, hambúrgueres embalados e salgadinhos.

— Eu trouxe isso aí…

Os olhos de Gammamon brilharam.

Ele pousou direto na cama e começou a devorar tudo sem a menor cerimônia — pacote, papel, plástico e tudo mais. O som de mastigação ecoou pelo quarto enquanto Hiro observava, cansado demais para reagir.

— Ei! Pelo menos tira a embalagem— …ah, deixa pra lá.

Em questão de segundos, tudo que estava sobre a cama havia desaparecido.

Gammamon passou a mão na própria barriga.

Roooonc.

O som ecoou alto.

Hiro arregalou os olhos.

— Não é possível…

Gammamon ergueu o olhar, completamente sério.

— Eu quero mais!

Hiro levou a mão ao rosto.

— Você acabou de comer o suficiente pra alimentar cinco pessoas…

O pequeno Digimon inclinou a cabeça.

— Então eu comi pouco.

Silêncio.

Hiro encarou o teto por um momento, como se pedisse forças ao universo.

— Eu vou à falência antes de entender o que está acontecendo…

A porta do quarto foi aberta abruptamente.

— Ei, cara! Eu não gosto quando você me dá essas patadas, sabendo que eu tenho boas intenções com a—

Kotaro parou no meio da frase.

Silêncio.

Os olhos dele se arregalaram lentamente. No centro do quarto, em cima da cama, estava um pequeno dinossauro branco… que o encarava de volta. E então, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo, a criatura levantou a mãozinha e acenou.

— Oi!

Kotaro piscou.

Piscou de novo.

Apontou devagar.

— Hiro… o que é essa coisa? Meio cachorro… meio dinossauro?!

Gammamon inclinou a cabeça, curioso.

— O que é um cachorro? — perguntou, olhando para Hiro com genuína confusão.

Hiro ficou completamente imóvel.

Seu cérebro claramente havia desistido de funcionar.

— Eu posso explicar… — ele começou, embora não tivesse a menor ideia de como faria isso.

Kotaro alternava o olhar entre Hiro e Gammamon, tentando processar a situação.

— Ele falou.

— Sim.

— Ele… perguntou o que é um cachorro.

— Sim.

— E ele está em cima da sua cama.

— Também sim.

Gammamon abriu um sorriso inocente.

— Eu gosto do amigo do Hiro. Ele faz muitas perguntas.

Kotaro deu dois passos para trás.

— Eu bati a cabeça ontem? Isso é efeito colateral da cantina? Eu estou sonhando?

Hiro finalmente respirou fundo.

— Kota… fecha a porta.

— Por quê?

— Porque se mais alguém ver isso, eu não vou ser o único internado na enfermaria.

Kotaro, ainda em choque, fechou a porta devagar, sem tirar os olhos de Gammamon.

Hiro sentou-se na cadeira da escrivaninha, passando a mão pelo rosto. Kotaro, por sua vez, sentou-se na ponta da cama — o mais longe possível do pequeno Digimon.

Hiro respirou fundo.

— Como é que eu explico isso sem parecer um completo maluco…? Bom, Kota… — ele apontou para a criatura ao seu lado — eu te apresento o Gammamon. Ele é um Digimon.

Kotaro piscou.

— Um… Digi-o-quê?

— Digimon. Ele apareceu no meu quarto ontem à noite. — Hiro suspirou. — E isso é tudo o que eu sei. Ele diz que vem de um tal "Mundo Digital", que eu não faço ideia de onde fica ou como se chega lá.

— Oookay… — Kotaro inclinou-se para frente, analisando Gammamon com cuidado. — Ele é tipo… um holograma? Algum projeto secreto? Porque ele não parece transparente.

Gammamon virou de um lado para o outro, como se estivesse sendo examinado por um cientista curioso.

— Eu não sou projeto — afirmou, cruzando os bracinhos.

— Eu realmente não faço ideia do que ele é — admitiu Hiro. — Mas, por enquanto, vou ter que ficar com ele.

Ele lançou um olhar sério para o amigo.

— Por favor, finge que ele é… sei lá, uma boneca eletrônica ou algo assim. Eu não quero que o Tenma venha reclamar que tem um "animal" no dormitório.

— Ei! — Gammamon protestou. — Eu não sou um animal. Eu sou um Digimon!

Kotaro ficou alguns segundos em silêncio, encarando a criaturinha branca e azul que agora o encarava de volta.

— Hmmm…

Ele coçou o queixo, pensativo.

— Tá… beleza. Eu acho.

Hiro estreitou os olhos.

— "Você acha"?

Kotaro levantou o dedo, como se estivesse propondo um contrato oficial.

— Mas se você quer que seu amigo aqui mantenha isso em segredo… vai ter que me passar seu dever de casa pelas próximas semanas.

— O quê?!

— E também vai ter que me ajudar a conquistar a Amy.

Hiro ficou encarando o amigo em completo descrédito.

— Você está me chantageando?

— Não, não… — Kotaro sorriu. — Eu prefiro o termo "acordo estratégico".

— Ninguém merece… — Hiro suspirou, lamentando. — Que adianta eu te ajudar, se aqui é proibido a entrada de animais e garotas?! Sendo que você nunca conseguiu levar uma garota até aos portões do nosso dormitório! — Hiro apontou.

— Você não precisa dizer isso em voz alta. — Kota respondeu.

=+=

A noite havia tomado conta do dormitório quando Hiro empurrou a porta dos fundos com o ombro, segurando alguns sacos em uma das mãos. Ao lado dele vinha o Kota, carregando outros sacos de lixo. O ar do lado de fora estava frio e silencioso demais para aquele horário. As luzes do pátio iluminavam apenas parte do caminho até o grande cesto metálico próximo à cerca.

Kota resmungava, andando logo atrás.

— Por que eu tenho que vir junto mesmo? Jogar lixo não é uma atividade que precise de duas pessoas.

Hiro respondeu logo, seco.

— Considere isso um trabalho comunitário. Porque você ainda entra no meu quarto sem bater.

Kota pegou o lixo e arremessou no tambor de lixo, e o Hiro fez a mesma coisa, enquanto o Kota franziu a testa.

— …Tá meio quieto, não tá?

Hiro não respondeu. Apenas continuou andando até o cesto e levantou a tampa metálica. O rangido pareceu cortar o ar.

Foi então que o Kota parou e questionou:

— Hiro… você ouviu isso?

— Ouvi o quê?

Kota virou lentamente a cabeça, olhando para o corredor escuro entre o dormitório e o muro externo.

Silêncio.

Então—

— Kota…

A voz veio baixa, suave e familiar. Até que os olhos dele se arregalaram.

— …Amy?

Hiro virou imediatamente.

— Amy? Ela não estaria aqui a essa hora—

— Kota… por aqui…

A voz chamou novamente, vinda da escuridão atrás do prédio.

Kota deu um passo à frente sem perceber.

— Ela deve estar em problema…

— Kota, espera— — Hiro tentou segurá-lo, mas o amigo já caminhava em direção à sombra.

Cada passo parecia engolido pela escuridão.

Kota parou. Algo estava errado. A voz havia parado. O silêncio agora era pesado demais.

— Amy…? — chamou, hesitante.

Atrás dele, algo respirou. Kota virou o rosto devagar.

Dois olhos vermelhos brilhavam na altura de sua cabeça.

Antes que pudesse gritar, uma enorme silhueta saltou da escuridão.

Presas brancas se fecharam a centímetros de seu rosto enquanto o impacto o jogava contra o chão.

— KOTA! — Hiro gritou.

A criatura pousou entre eles.

O corpo alongado, as garras arranhando o concreto, saliva escorrendo entre dentes impossivelmente afiados. Fangmon ergueu lentamente a cabeça.

O focinho se moveu, farejando o ar.

Então seus olhos se fixaram em Hiro.

A criatura deu um passo à frente.

Outro.

O som das garras ecoava seco pelo pátio.

Ela aproximou o rosto do peito dele, inspirando profundamente.

Silêncio.

E então, numa voz baixa, distorcida e faminta:

— …Seu coração… está apodrecendo…

Kotaro gaguejava, amedrontado:

— Apodrecido? Do que você está falando? Você é um holograma ou um fantasma?

Antes que Hiro pudesse responder, um som cortou o ar acima deles.

THUD.

Duas sombras atravessaram o pátio e aterrissaram com violência diante da entrada do dormitório, bloqueando completamente o caminho de volta.

Outros dois Fangmons.

As criaturas ergueram lentamente a cabeça, os olhos dourados brilhando na penumbra enquanto suas caudas se moviam inquietas, como predadores cercando a presa.

Hiro recuou um passo, percebendo o cerco.

— São… Digimons?! — perguntou, tenso. — Mas o que vocês querem?

O Fangmon à sua frente abriu levemente a mandíbula, revelando presas manchadas pela saliva espessa.

— Nós queremos… o que você carrega.

Sua voz soava arranhada, quase animal.

O segundo Fangmon inclinou a cabeça, observando Hiro como se avaliasse um alimento raro.

— Dentro de você existe uma grande fonte de energia…

O terceiro rosnou baixo, as garras raspando o chão.

— Nós queremos essa energia… para nos tornarmos mais fortes.

As três criaturas avançaram lentamente ao mesmo tempo.

— Para evoluir.

Hiro cerrou os punhos, o coração acelerado enquanto os três Fangmons avançavam lentamente, fechando qualquer possibilidade de fuga.

Kotaro tentava se levantar, mas as pernas tremiam demais para obedecer.

— Hiro… e-eu não acho que eles vieram conversar… — murmurou, recuando pelo chão.

O Fangmon mais próximo abaixou o corpo, assumindo postura de ataque.

— Entregue… a energia…

As luzes do pátio piscaram violentamente. Hiro pensava em um meio de escapar ou salvar a pele do amigo até que se lembrou do seu Digivice e, rapidamente, pressionou um botão.

De repente, uma onda azul se expandiu a partir dele.

A área ao redor tornou-se horrivelmente deteriorada, com partes completamente destruídas. Musgo crescia por toda parte, como se a natureza estivesse retomando o que era seu. Pequenos brilhos coloridos flutuavam pelo ambiente.

Hiro percebeu que todos os sons da cidade ao redor haviam desaparecido completamente. Por um instante, teve a sensação de que não fora o mundo que mudara — mas sim ele que havia sido arrancado da cidade.

— Então é assim que essa área se parece?! É muito pior do que eu pensava!

— O que você fez? — questionou o primeiro Fangmon.

Hiro engoliu em seco, tentando manter a calma.

— Pelo jeito… você não está mais transparente!? — comentou, nervoso. — Pelo menos esse campo vai proteger todo mundo… mas agora sou eu que estou preso aqui.

O Fangmon líder avançou num salto repentino em direção a Hiro, derrubando-o facilmente no chão. A criatura pressionou a garra sobre a mão dele.

— Ah…! — Hiro resmungou de dor. — Essa área estranha foi uma péssima ideia! Pelo menos o Kota está seguro… mas agora sou eu que preciso de ajuda!

Os três Fangmons estavam prestes a atacar Hiro quando o som de uma janela se estilhaçando ecoou pelo ambiente.

As criaturas ergueram o olhar ao mesmo tempo. Acima deles, uma pequena silhueta branca despencava do alto.

— Gammamon?!

O Digimon caiu em alta velocidade, atingindo um dos Fangmons com uma poderosa cabeçada. O impacto o lançou contra o chão com força.

Sem parar, Gammamon girou o corpo no ar e se arremessou contra os outros dois, golpeando-os sucessivamente e obrigando-os a recuar vários passos, afastando-se de Hiro.

O pequeno Dragão pousou entre Hiro e os inimigos, abrindo os braços como um escudo.

— Gammamon protege Hiro!

— Saia da nossa frente, inseto! — Fangmon 2 rosnou, avançando em direção a Gammamon.

Algumas palavras surgiram na mente de Hiro, como se tivessem sido colocadas ali à força, fazendo-o exclamar por instinto:

— Quebragarra (Breaclaw)!

Ao ouvir o comando, Gammamon saltou em direção ao Fangmon. A criatura se surpreendeu quando uma das garras do pequeno Digimon se envolveu em energia brilhante. No instante seguinte, Gammamon desferiu um golpe poderoso, forte o suficiente para lançar o Fangmon contra o Fangmon 2.

— Isso foi um bom golpe… — murmurou Hiro, até perceber outro Fangmon avançando rapidamente em direção a Gammamon.

O lobo vermelho abriu a mandíbula e disparou um feixe de energia — seu Caixão Explosivo (Blast Coffin).

Gammamon desviou rapidamente, apenas abaixando o corpo enquanto o ataque passava acima dele e explodia contra a entrada do dormitório.

Sem hesitar, o pequeno Digimon saltou novamente contra o inimigo, enquanto outra palavra surgia misteriosamente na mente de Hiro.

— Ataque de Chifres (Horn Attack)!

Gammamon avançou e desferiu uma poderosa cabeçada, fazendo o Fangmon líder recuar vários passos, ficando momentaneamente desnorteado.

E em seguida pousando no chão após o impacto, deslizando alguns centímetros enquanto suas garras riscavam o concreto deteriorado do campo digital.

Os Fangmons rosnaram em uníssono.

O líder sacudiu a cabeça, recuperando o equilíbrio, os olhos dourados agora brilhando com irritação evidente.

— Um… Nível Criança…? — rosnou, mostrando as presas. — E ainda assim ousa nos ferir…

O Fangmon atingido pelo Quebragarra (Breaclaw) levantou-se lentamente, o corpo tremendo de raiva.

— Esse humano… está alimentando você…

O terceiro circulava ao redor, procurando uma abertura.

Hiro engoliu em seco ao perceber o movimento.

— Gammamon! Cuidado, eles estão te cercando!

As três criaturas avançaram ao mesmo tempo.

Uma pela frente.

Duas pelos flancos.

Gammamon virou a cabeça rapidamente, tentando acompanhar todos os movimentos ao mesmo tempo. Era rápido — mas ainda inexperiente.

O Fangmon da esquerda saltou primeiro.

Garras desceram em arco.

CLANG!

Gammamon bloqueou com os braços, mas o impacto o empurrou para trás, seus pés escavando o chão.

— Gammamon! — Hiro gritou.

Antes que pudesse se recuperar, o segundo Fangmon surgiu pelas costas, abrindo a mandíbula.

Saliva escorreu entre as presas.

— Sua energia… será nossa!

Ele avançou para morder.

— NÃO!

O Digivice de Hiro brilhou intensamente.

Gammamon se lançou imediatamente à frente de seu parceiro, colocando-se como escudo. No mesmo instante, o Fangmon disparou um feixe de energia à queima-roupa.

O impacto explodiu contra o corpo do pequeno Digimon.

— GAMMAMON!

A força do ataque lançou tanto Hiro quanto Gammamon para trás, arrastando-os pelo chão deteriorado do campo digital até colidirem violentamente contra o concreto quebrado.

— Ei, amigo?! Você está bem? — Hiro questionou, preocupado.

Gammamon se levantou meio exausto, mas ficou de costas para o irmão.

— Irmãozão! Eu irei proteger você… Não vou deixar que machuquem o meu IRMÃO!

Hiro ficou chocado com o que o Gammamon tinha dito, fazendo ele sorrir de canto de boca, fazendo ele se levantar e ficando ao lado dele.

— Eu digo o mesmo! Não posso deixar o meu irmão mais novo lutar sozinho, né!?

Os olhos do Gammamon brilharam para o irmão — Irmãozão!

O Digivice do Hiro começou a brilhar, chamando a atenção dele e dos seus inimigos.

— Irmão, eu estou sentindo que aquela comida que você me deu está voltando… — Gammamon tocou a própria barriga.

— Ele vai vomitar? — Hiro ergueu uma sobrancelha.

— Sinto vontade de ficar mais forte! Muito mais forte! — Gammamon começou a ficar cercado por uma energia luminosa, e logo ele começou a mudar ali dentro.

Os três Fangmons se juntaram e avançaram contra o brilho vermelho.

Logo uma sequência de punhos flamejantes socou os três Fangmons rapidamente, enquanto o brilho ao redor do Gammamon desapareceu.

— Quem é… Você?! — Hiro ofegou.

Gammamon ficou na frente do Hiro. Sua pele tinha ficado quase toda vermelha, ele tinha quase a altura do Hiro, e seu cachecol azul havia crescido muito. As chamas vermelhas contornadas de preto banhavam as mãos dele.

— Gammamon… — Ele levantou o punho direito e olhou de canto para o Hiro, com um sorriso. — BetelGammamon, agora!

— BetelGammamon… — Hiro repetiu. — Você evoluiu!

Os três Fangmons se reuniram furiosos, enquanto o Gammamon ficou em posição de combate.

— Eu não vou deixar vocês chegarem perto do Hiro, nem do Kota… Ou de qualquer ser humano!

BetelGammamon avançou contra os três Fangmons ao mesmo tempo. Chamas envolveram seus punhos sucessivamente enquanto ele disparava uma grande esfera de fogo — Tiro do Sol (Sorshot).

As bolas flamejantes cruzaram o campo em alta velocidade, obrigando os Fangmons a responderem imediatamente com seus Caixão Explosivo (Blast Coffin). Os feixes de energia colidiram com as chamas, provocando uma grande explosão que iluminou todo o campo digital.

Sem hesitar, BetelGammamon atravessou a fumaça da explosão.

Surgindo diante do Fangmon do meio, seus punhos voltaram a se incendiar.

— Soco do Sol (Sorblow)!

O poderoso soco flamejante atingiu o rosto da criatura em cheio, lançando-a violentamente para trás.

Os outros dois Fangmons tentaram contra-atacar, avançando para mordê-lo pelos lados. BetelGammamon saltou no último instante, fazendo com que os dois colidissem de cabeça um contra o outro.

Aproveitando a abertura, o Dragão Vermelho girou no ar e desferiu dois Tiros Flamejantes consecutivos.

Os golpes explodiram em chamas ao impacto, espalhando fogo pelo chão e iniciando um pequeno incêndio ao redor das criaturas.

— Ele é muito rápido… — murmurou Hiro, impressionado.

Envolvidos pelas chamas, os dois Fangmons começaram a se desfazer, seus corpos se desintegrando em partículas de dados luminosos até desaparecerem completamente.

Restava apenas o Fangmon líder, que rosnava furiosamente.

— Você não disse que queria o nosso coração podre? — provocou BetelGammamon, avançando um passo. — Então vem pegar!

O Fangmon rugiu, tomado pela raiva, e disparou em corrida, concentrando uma enorme quantidade de energia na boca para liberar seu Caixão Explosivo (Blast Coffin).

Mas BetelGammamon foi mais rápido.

Chamas envolveram seu punho enquanto ele avançava direto contra o ataque.

— Soco do Sol (Sorblow)!


No exato momento em que o Fangmon abriu a mandíbula para disparar, o soco flamejante atingiu a energia ainda em formação.

A explosão ocorreu dentro da própria boca da criatura.

O punho em chamas atravessou suas presas e avançou até a garganta, enquanto BetelGammamon o erguia do chão com a força do impacto.

O corpo do Fangmon começou a romper, rasgando ele por dentro, desfazendo-se em dados que se dispersavam no ar como cinzas… até desaparecer por completo.

— Ele… venceu… — murmurou Hiro, sentando-se no chão, ainda tentando recuperar o fôlego.

BetelGammamon se virou para seu parceiro, prestes a dizer algo, mas seu estômago roncou alto antes que qualquer palavra saísse. Logo em seguida, uma luz envolveu seu corpo.

O brilho desapareceu.

Gammamon caiu de joelhos no chão.

— Gammamon! — Hiro correu até ele. — Você está bem?!

O pequeno Digimon ergueu o rosto, fazendo uma careta.

— Eu estou com fome!

Hiro soltou um suspiro cansado.

— É… deixa que eu arrumo algo pra você comer. — Ele passou a mão pelos cabelos. — Mas primeiro vamos sair daqui.

— Hiro… — Gammamon se levantou, sorrindo animado. — Obrigado… por acreditar em mim. Acho que isso me fez evoluir!

Hiro sorriu de volta.

— Ah, sem problemas. Você é meu irmão, afinal… né?

Hiro então apertou um botão em seu Digivice.

A onda azul começou a recuar, sendo puxada de volta para o dispositivo. Aos poucos, o campo digital desapareceu, restaurando o pátio à sua aparência normal, como se nada tivesse acontecido.

— HIRO?!

Os dois viraram ao mesmo tempo.

Kotaro vinha correndo pelo pátio, claramente desesperado. Ele olhava ao redor como se esperasse encontrar monstros surgindo a qualquer momento.

— Cara! O que foi aquilo?! Eu desmaiei ou fui teleportado ou—!

Ele parou abruptamente ao ver Gammamon. Kotaro piscou, depois apontou lentamente.

— …Ele tá bem.

Gammamon levantou a mãozinha, ainda cansado.

— Oi, Kota…

Kotaro levou as duas mãos à cabeça.

— OK. Ótimo. Perfeito. O dinossauro continua falando. Então eu não imaginei os lobos gigantes!

Hiro coçou a nuca, sem saber muito bem por onde começar.

— É… sobre isso—

Kotaro se aproximou rapidamente.

— Eles sumiram! Simplesmente sumiram! E o lugar tá inteiro! Não tem marca nenhuma! — Ele bateu o pé no chão, confuso. — Eu sei que a gente quase morreu aqui!

Hiro ergueu o Digivice levemente.

— Foi isso. O campo que eu ativei impede que o mundo real seja destruído.

Kotaro encarou o dispositivo, Hiro e depois Gammamon. Ele respirou fundo.

— Certo… então agora existem hologramas assassinos… campos invisíveis…

Hiro deu um sorriso cansado.

— Resumindo… sim.

Kotaro ficou em silêncio por alguns segundos. Então cruzou os braços.

— …Eu sabia que estudar aqui ia deixar minha vida interessante.

Gammamon puxou a manga dele.

— Kota também foi corajoso!

— Eu estava gritando e correndo! — respondeu imediatamente.

— Mesmo assim — disse Gammamon, sorrindo.

Kotaro desviou o olhar, meio sem graça.

— Tá… talvez só um pouco corajoso.

O estômago de Gammamon roncou alto novamente.

ROOOOOONC.

Os dois humanos olharam para ele.

— Prioridades — Hiro suspirou. — A gente precisa alimentar ele antes que tente comer o dormitório inteiro.

Kotaro apontou.

— Espera, espera… ele ficou daquele tamanho todo e agora tá com fome de novo?!

— E o que parece né... — respondeu Hiro.

Gammamon abriu um grande sorriso.

— Vamos comer!

Kotaro começou a rir, ainda nervoso.

— Beleza… depois de sobreviver a lobos demoníacos, eu acho que mereço um lanche também.

Os três começaram a caminhar de volta para o dormitório.

FIM DO CAPÍTULO

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DIGIMONS DO DIA:

Betel Gammamon

Esta é a forma em que Gammamon cresceu, e seu corpo se tornou vermelho devido às chamas de seu coração ardente. Sua agilidade aumentou, e seu poder e velocidade em combates corpo a corpo subiram ainda mais. O poder de seus ataques dobra à medida que a excitação de suas emoções se intensifica.
Seus Movimentos Especiais são "Sorblow", no qual ele ataca o inimigo com as chamas que acumula em suas mãos, e "Sorshot", no qual ele lança as chamas de suas mãos, embora com menos poder.

Fangmon

Um Digimon Besta Demônio que vive nas profundezas da floresta e caça aqueles que se perdem. Diz-se que é definitivamente o dado do Lobo Mau que aparece em muitos contos de fadas, tornando-se um Digimon, e uma vez que fixa sua atenção em uma presa, ela nunca escapa, chegando às vezes a se disfarçar como alguém querido para se aproximar. Possui uma existência herética entre os Digimon das espécies Cão e Lobo; se Garurumon é um ser da luz, então Fangmon é um ser das trevas.Anime e Ma
Seus Movimentos Especiais são roubar armas ou itens do oponente com sua agilidade afiada (Snipe Steal), e disparar uma rajada de energia de sua boca (Blast Coffin).





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